LUGAR ONDE MORAM OS URUBUS

Hospício é definido em dicionários como asilo de loucos, hospital de alienados, mas também como estabelecimento onde há assistência a doentes e pobres. O maior hospício que existiu no Brasil, criado em 1903, mais especificamente em Barbacena, conhecido por Colônia, apropriou-se desses dois significados e os reinterpretou: qualquer pessoa descuidada, tendo diagnóstico de insanidade ou não, podia ser enjaulada nesse lugar. Ao contrário do dicionário, não havia assistência e sim persistência da instituição em desenvolver a loucura onde não existe.

Aproximadamente 70% dos internados não receberam diagnóstico de doença. O motivo do abandono era, sobretudo, para segregar e ter maior controle da população, mas isso não era revelado. Os influentes na cidade, e também nos arredores, enclausuravam os indesejados, tais como amantes, homossexuais, negros, prostitutas, etc. Além disso, quem perdia os documentos ou tinha sido vítima de violência, também não passava despercebido. Inclusive, uma garota de 23 anos foi internada porque estava triste. Se não foi morta no hospício com certeza morreu por dentro. No local onde tudo acontece e ninguém sabe das atrocidades, os pacientes tornam-se apenas números, como em um campo de concentração.

O asilo, de fato, alienou os sofredores, já que foi retirado deles a liberdade de agir e pensar por conta própria. Não havia limites para crueldade: no frio rigoroso de Barbacena, muitos internados eram obrigados a ficarem o dia todo despidos na frente de homens, mulheres e crianças, o que aumentava o número de abusos. Dormiam em capins, já que a capacidade era de 200 pessoas mas havia 5 mil no hospício. Passavam fome a ponto de existirem relatos dos internados comendo pombas vivas, bebendo urina e esgoto. Os considerados “rebeldes” eram submetidos a tratamentos de choque. Morriam em torno de 16 pessoas por dia por maus tratos e tortura e, mais uma vez, nada havia sido desvelado.

A alienação também atingiu funcionários. Não aqueles que sofriam por terem de cumprir ações antiéticas, mas aqueles que as naturalizaram e as exerciam sem peso na consciência, como é o caso de empregados que estupravam os sobreviventes, como se já não bastassem as desumanidades suficientes praticadas no manicômio. 

Segundo o professor de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), José Rodrigues, “podemos até pensar que, mais do que oferecer um tratamento, os hospícios tratavam de submeter os corpos dos internos a um regime disciplinar que tornava suas vidas descartáveis”. Existia dentro da instituição uma brutal insignificância do ser humano, porque cadáveres eram comercializados com universidades públicas. Porém, quando o mercado deixou de comprá-los, os corpos ficaram na Colônia, diante de todos, jogados no chão, a céu aberto, quase como uma oferenda aos urubus que ali passaram a morar. A outra opção acontecia quando os funcionários decompunham os corpos com ácido no próprio pátio.

Essa perversidade só foi melhorar após a Reforma Psiquiátrica, em 1979. Entretanto, em 76 anos de violência, 60 mil pessoas morreram. Algumas conseguiram sair do manicômio, outras permaneceram, e há casos em que alguns indivíduos nasceram na Colônia, prováveis frutos de um estupro, que morreram no mesmo ambiente hostil, cercados pelos urubus que ali aguardavam ou pela loucura que quase todos, se não todos, desenvolveram.

Texto: Fernanda Nakashima

Foto:  fotospublicas.com/Prefeitura de Barbacena