Em entrevista exclusiva, Tenente Durso fala sobre a morte de Valdeci

O mês de novembro foi marcado pela controversa morte do jovem Valdeci Gonçalves Ribeiro, que sofria de problemas psiquiátricos.
Em entrevista exclusiva  ao Jornal Primeira Página, o Tenente Lúcio José Durso de Deus fala sobre o caso.
Jornal Primeira Página (JPP):  Tenente, qual sua visão sobre o acontecimento da morte do Valdeci?
Tenente Durso (TD): Foi lastimável. A situação toda, o que aconteceu foi lastimável, porque já era uma problema que todos sabiam e que a qualquer momento poderia acontecer algo de ruim. 
Ele havia sido abandonado pela família e já havia diversos inquéritos, diversas passagens dele pela polícia e ordem de internação, até o dia que aconteceu o fato. Todos os órgãos de defesa social do município falharam, ninguém tomou providências.
JPP: Mesmo que o laudo da necropsia  não constate que ele faleceu de hemorragia interna, cabe alguma punição a esses policiais?
TD: A sanção eles já estão sofrendo. Eles estão presos preventivamente. Mesmo se o laudo constatar lesão, houve as lesões. Ninguém toma golpes de bastão tonfa e não tem lesão. Houve lesão. Agora o que vai ser julgado é o mérito do excesso, o que eles fizeram. No entanto, deve ser analisado o seguinte: já havia uma lesão pré-existente? Porque antes de ele se deparar com os policiais, ele havia se envolvido em brigas e tomado uma tijolada na cabeça. Está no boletim de ocorrência.
Os policiais serão julgados. Eles têm que ser julgados, até mesmo para não pairarem dúvidas com relação ao fato. Independente do distúrbio psiquiátrico do Valdeci, ele era uma pessoa, um cidadão.
JPP: Tem-se o conhecimento de que há outros  casos similares ao do Valdeci em Barroso. Como o senhor avalia o tratamento e o acompanhamento de pessoas que passam por essa situação?
TD: O Valdeci não era para estar no convívio social. Era para estar em uma clínica. Ele já havia sido abandonado pela própria família, ficava perambulando pela cidade, já havia tentado suicídio, necessitava de medicamentos controlados. Qual o acompanhamento que ele tinha? Por que ele não estava internado? Se havia uma medida de internação, por que não foi cumprida?
No final, caiu na mão da PM, porque a PM é a ponta de linha, o único órgão de defesa social com o qual se pode contar 24 horas por dia. As ações dos policiais serão julgadas, mas há que se convir que, antes da ocorrência, já havia uma série de fatos também relativos a ele e ninguém tomou providência.  Poderia ter havido uma certa prevenção por parte do município.
Há um outro caso parecido com o do Valdeci e, pelo que conversei com o delegado da Polícia Civil, está sendo pedida a prisão preventiva desse outro indivíduo, que também sofre de distúrbios mentais e que também já começou a causar problemas na cidade. Então, para evitar que um novo caso aconteça, está sendo pedida a prisão preventiva.
JPP: Por que o senhor  acha que os policiais passaram dos limites na tentativa de conter o Valdeci? O fato de ele ter ferido dois dos PMs influenciou na ação dos policiais?
TD: Não. Eles usaram a força, segundo o relato deles. Eu não estava aqui e não acompanhei a ocorrência, mas todo mundo sabe que o Valdeci era bastante forte. Quando tinha algum surto psicótico, 2, 3, 4 homens não seguravam ele. Eles usaram a força? Usaram. Mas eu não sei se eles  cometeram o excesso da força. Isso quem vai poder dizer é o laudo da necro-psia e as outras pessoas que se envolveram com ele antes. Já havia alguma lesão pré-existente? Já existia algum problema antes? Antes de a Polícia Militar colocar a mão no Valdeci, já havia três ocorrências com ele no mesmo dia. É lógico que você ver dois policiais esfaqueados é complicado. Você vai fazer de tudo para poder conter o agressor. Se eles bateram, eles já confirmaram. Se houve excesso, eles vão pagar pelo que fizeram. Julgar se houve ou não excesso eu não posso, pois não estava aqui.
JPP: Se o senhor estivesse aqui no dia, o fato aconteceria da forma que aconteceu?
TD: Eu acredito muito em Deus e no que ele põe no nosso caminho. Então eu não sei. Eu prefiro colocar na mão dele. O que esses policiais estão passando e o que o Valdeci também passou. Não sei se Deus falou: “Agora acabou para você e eu estou trazendo você para morar comigo”. A mesma situação dos militares. “Vocês vão pas-sar por uma privação”. Um dos policias está com um filho recém-nascido, outro tem a mãe com problemas cardíacos, e todos nós temos problemas na vida. Se eu estivesse aqui, a única coisa que eu faria era orientá-los. A força teria que ser usada, sim, de forma proporcional. Mas o encaminhamento teria de ser feito automaticamente ao hospital e não socor-rer um de cada vez.  Essa seria minha orientação. Mas como eles disseram que o Valdeci estava bem, estava andando, estava tranquilo, foi por conta e risco deles e eles estão pagando por isso
JPP: Como o senhor avalia a preparação dos agentes da PM de Barroso? Como era o trabalho desses quatro policiais?
TD: Com relação à polícia de Barroso, a cada mês é feita uma instrução física, tática e de defesa pessoal. A cada ano, o pessoal é recolhido para dentro do batalhão e fica durante uma semana, quando são avaliados. Então, o preparo deles  é dos melhores. Da ficha dos quatro não há o que se falar. Até antes dessa ocorrência, eles eram avaliados como muito bons, a ficha deles é nota 10. Agora estão sendo tachados como homicidas, uma coisa que na realidade não condiz.
JPP:  Pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas aponta que cerca de 70% dos brasileiros não confiam na polícia. Como as diversas polícias devem proceder para recuperar essa confiança?
TD: Esse problema é crônico, sempre existiu e sempre vai existir, enquanto não se mudar a realidade. Eu tenho 20 
anos de Polícia Militar e já perdi diversos amigos, colegas e conhecidos ao longo da minha carreira por não gostarem da Polícia Militar. O que a mídia mostra? Raramente vai mostrar algum policial que fez algo de bom. Eles mostram a polícia corrupta, a polícia que bate, que mata, que oprime. É o que dá ibope.
Voltando para a questão política, até a Revolução de 1964, todas as polícias eram aquarteladas e forças auxiliares do exército. Com a Revolução de 64, muitos manifestantes foram exilados, oprimidos e mortos. Muitos desses hoje estão no poder. A presidente Dilma é uma dessas pessoas. Ela foi presa, exilada e hoje é Presidente da República. O problema com todas as polícias é histórico, é antigo. O que se vende hoje é uma visão deturpada da polícia, que não condiz necessariamente com a realidade. Quantos partos policiais militares já fizeram? Quantos salvamentos? Quantas pessoas eles já ajudaram? Isso não vende. Até mesmo aqui em Barroso, quantas boas ações esses policiais já fizeram?  Eles estão sendo julgados por uma única ação.
JPP: Mesmo que esses policiais não permaneçam presos, eles voltarão a atuar em Barroso?
TD: Isso fica a critério do comandante do 38º Batalhão. Se sair a liberda-de provisória, eu torço para que eles retornem para Barroso, mesmo que eles não atuem na rua, porque tem o 190 e eu necessito de cinco policiais em escala para atender o 190. Mas essa situação não depende de mim, e sim do comandante.
JPP: Esse acontecimento prejudica a imagem dos outros policiais e da corporação aqui de Barroso?
TD: A ação de uma pessoa dentro da Polícia Militar, sendo benéfica ou não, interfere sim na imagem da Polícia Militar. Se for feito algo de bom, enaltece nosso serviço e se foi algo de errado, automaticamente vai prejudicar nosso serviço. Foi um fato isolado, atípico, espero que nunca mais aconteça. Respeito a família do Valdeci, assim como todos os órgãos de defesa social do município. Infelizmente aconteceu a morte de uma pessoa que não tinha condições de estar no convívio social. Se os policiais militares forem considerados culpados, que eles paguem pelo que cometeram, mas que a população não caia em descrédito com a Polícia Militar por isso, porque nós não estamos aqui para matar, agredir,ou extorquir. Nós estamos aqui para fazer nosso serviço.

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